segunda-feira, 23 de abril de 2012

Queda ao Abismo



Mesmo amando-te eternamente
Maldita seja a distância e o desejo latente
Luxúria maldita que separa o sentimento puro
Alma consumida pelas chamas do falso sentimento
Para longe do meu pútrido corpo estejam essas meretrizes
O Anjo Caído encarregar-se-á de levar as nossas almas
Para o Abismo Eterno é o meu destino
Uma alma carregada de mágoas

Culpado por iludir um coração puro
Embebedá-lo com a luxúria
Consumir o seu prazer
Dar-lhe o gozo até que adormeça a sonhar com o pecado
Eu serei o teu maior pecado e o teu maior erro
O meu destino será sofrer e rever o que te fiz
Devo sofrer nas profundezas da escuridão

Amargar no meu próprio ser
Encontro-te nos meus pensamentos
Mostro-te os meus erros
Mesmo assim acolhendo-me
Sempre estarei no teu puro coração
Mesmo nas profundezas
Oiço a tua preocupada oração
A pedir piedade pela minha alma podre

Aquela que merece ser queimada nas chamas da culpa eterna
Estilhaça o que sobra da minha patética existência
Aquele que enganou, mentiu e manipulou
Devo ser esquecido por todos e enterrado com palavras ao vento
O funeral deve ser solitário
Lúcifer será o meu acompanhante para o túmulo
Eterno tormento, será esse o meu destino
Manda os meus restos e cinzas ao vento

O meu túmulo é o esquecimento
Quero paz para a tua alma
Aquela que não tive para a minha
A minha última palavra
Antes da minha queda
Antes do meu Tormento
Esqueçe as minhas Mentiras
Para o meu destino, a Queda ao Abismo

FOLEGO


Ao abrir os olhos, ele teve a terrível sensação de estar imobilizado. Tentou observar em volta, descobrir o que lhe estava a acontecer, mas a cabeça bateu com força logo acima. Ele estava totalmente impossibilitado de se mover muito além da posição deitada em que se encontrava. E estava mergulhado na escuridão.
Com calma, procurou mover-se ao máximo que se lhe era permitido. Ele virou as mãos, apalpando aquela barreira. Por mais que os seus olhos se acostumassem à escuridão, não conseguia ver nada. Os dedos tocaram em algo pequeno, duro, que subitamente se afastou, e ele sentiu profunda repugnância ao concluir que era uma barata. Que lugar seria aquele?
Ele descobriu, em seguida, quando os seus dedos tocaram num entalhe de cruz. Estava dentro de um caixão. Uma imediata sensação de claustrofobia apoderou-se do seu corpo. Ele começou a gritar por socorro, pontaeando e esmurraçando as paredes. Quanto mais o barulho ecoava e se concentrava naquele exíguo espaço, mais desesperado ele ficava. A sua reação histérica durou pouco mais de meio minuto.
Inconscientemente, ele decidiu manter o controlo. Pensou, então, que, quanto mais se atrapalha-se, mais estaria condenado a morrer naquela clausura. O seu ar, em breve, tornava-se cheio de gás carbônico, e morreria asfixiado. A histeria só serviria para o fazer respirar mais, acelerando a sua própria morte.
Quando sentiu a pulsação e a respiração a acalmar, tentou pensar de forma racional. Dormira tranquila e normalmente na noite anterior. Lembrava-se que tivera bons sonhos, mas não se conseguia lembrar quais foram. Não acordara até o momento de abrir os olhos ali dentro. Alguma coisa lhe acontecera nesse intervalo. E, lentamente, convencia-se do pior.
Fora enterrado vivo.
Por mais assustadora que a idéia parecesse, não conseguia imaginar outra explicação. Alguém, por qualquer motivo, convencera a todos que ele havia morrido, e o enterraram. Por um momento, tossiu. A tosse foi seca, agoniada, e ficou com medo que o ar se acabasse. Deu-se conta da fragilidade de sua situação, e o desespero instaurou-se outra vez; ele recomeçou a esmurraçar e gritar. Vieram-me lágrimas aos olhos, e ele desatou a chorar piedoso, passando a sussurrar desejos insanos de liberdade.
Tentou imaginar quem seria maligono o bastante para colocá-lo em tal pesadelo. Logo ele, um ser possuidor de uma conduta impecável, digno de honrarias por honestidade e altruísmo. Um trabalhador exemplar, um amante incomparável. Como, e por que motivos, acabara ali, sepultado, enquanto ainda respirava?
Recompondo-se, outra vez dono de si, girou a cabeça para limpar, com alguma dificuldade, as lágrimas na camisa. Com o rosto de lado, ouviu alguma coisa e tentou ver, sem conseguir. O som era como algo rastejante, seguido de leves batidas. Quando se deu conta, sentiu um arrepio percorrer os pêlos. A barata. Instintivamente, mandou-se para o lado e a pancada que sofreu no corpo fe-lo gemer de dor.
Começou a tossir e, quando parou, sentiu várias patas subindo pe-lo seu braço. Com um nojo sobre-humano, deu-se conta que havia ali em torno de três ou quatro baratas, aproximando-se, sentindo no ar o odor quente da sua morte iminente. Comessou a pensar na própria família. Nos pais, no irmão mais novo, na mulher que tanto amava. Sempre tentara tratá-los da melhor forma. Nunca lhes dera motivos para terminar assim.
Ou dera?
Sentiu duas baratas subindo-lhe o pescoço, aproximando-se de seu rosto. As demais — agora tinha certeza que eram, no total, cinco daquelas pequenas coisas — caminhavam sobre a roupa que cobria s peito, movendo-se em direção aos braços e pernas. Os insetos agiam como se examinassem o seu corpo, atraídos pelo cheiro de pavor que saia de cada poro seu.­ Deliciavam-se com esse cheiro, e caminhavam com grande satisfação sobre a sua pele, como que para tornar aquela fragrância sepulcral ainda mais envolvente.
Sentiu uma vertigem ainda maior quando uma das baratas se aproximou de sua fossa nasal. Expirou com força para assustá-la, mas a ignóbil criatura não recuou; desistiu da narina e subiu até o topo do nariz, descobrindo adiante os olhos. A sensação do que estava por vir fez com que ele se remexesse desesperadamente, um pânico invadindo a sua garganta como uma golfada explosiva. A barata rolou até uma das sobrancelhas.
O nojo e o terror aumentaram quando ele sentiu uma dor fina num dos dedos, e imaginou que seria outra barata, roendo-lhe a pele, a carne, a cartilagem, a vida. Gritou e chorou, implorando a ajuda de cada santo que se conseguia lembrar, a espera que um milagre acontecesse.
Os gritos só serviram para que, com a boca aberta, uma barata se aproximasse e resolvesse explorar. A outra, a essa altura, já caminhava sobre a sua córnea, deslizando no seu olho, entorpecida pelo brilho e pelo gosto irrisório que lhe proporcionava. Enquanto a dor aguda aumentava nos seus dedos, a barata atravessou-lhe os lábios com velocidade e começou a examinar o sabor da sua saliva.
Para evitar que a barata lhe descesse pela garganta, passeasse e até resolvesse reproduzir-se no seu interior, ele esperou que caminhasse até à sua arcada inferior, então mordeu com força, atravessando com os dentes, provando com a língua o paladar séptico das suas entranhas.
Quis estar morto. Não conseguia entender por que alguém fora tão cruel a ponto de enclausurá-lo daquela forma. Pensou nos pais, na distância do convívio, apesar de morarem na mesma casa, no tempo que estavam a perder sem se divertirem quando tudo poderia de repente acabar. Pensou no irmão, nas brigas rotineiras, na forma como o destratava e no quanto o amava e sentia a sua falta. Pensou na namorada e em cada segundo de amor não correspondido que ela lhe dedicava. Pensou nos amigos que ficaram pelo caminho, porque ele fora egoísta demais para mantê-los na sua vida. Pensou nos filhos que não mais teria e no quanto privaria deles também o próprio amor.
Enquanto uma barata punha ovos abaixo da esclerótica do seu olho, enquanto outras pareciam supostamente, a deliciar-se com a textura cálida das suas hemácias, enquanto sentia a aproximação lenta e persistente de fungos e micróbios decompositores, gritou. Não foi um grito de dor ou medo. Foi um grito de dó. Dó de si mesmo.
O grito pareceu sugar-lhe todo o resto do fôlego que possuía. Podia sentir apenas pela intensidade do toque do ar na sua pele que ali não mais havia oxigênio suficiente.. Teve vontade de rir da efemeridade humana; sempre ambiciosos e, em momentos como aquele, desejam a coisa mais simples, que têm sempre. Vida.
A tosse ficou mais forte, e os seus alvéolos constringiram-se. Ele, já sem fôlego, sentiu uma dor no peito, que estava longe de ser a morte; era arrependimento, por toda uma vida mal vivida. E só então, quando sentia o corpo desfalecer, quando sentia cada membro pesar, compreendeu o que acontecera consigo. Enquanto as suas pálpebras se fechavam, enquanto as dores e até o movimento das baratas não mais incomodavam, entendeu que não foram os pais, o irmão, a namorada ou amigos que o colocaram ali.

Fora ele mesmo. Porque quem é morto em vida, cria para si o seu próprio túmulo.

Doce Dia


Num doce dia, vi-te a sorrires para mim.
O céu escurece quando eu olho para ti.
A chuva cai e lava todo o sangue que derramei na escuridão
Quando estava sozinho, sentia-me vazio..
Vou a teu encontro,
Mas já não estás lá.
Percebo que era só uma visão.
Vejo-te somente porque quero
E não porque estás presente
Penso que foi tudo uma ilusão.
Não passas-te disso,
Mas fez-me sofrer
Agora procuro consolo no vale sombrio
Junto às almas que lá estão com esse mesmo objetivo
Vem-me salvar!
És a única que me pode trazer á vida.
A minha alma é prisioneira dos meus fantasmas,
Parte as correntes que a prendem
Segue o som das batidas do meu coração.
Se não ouvires as batidas
É porque não és digna de me salvar
Ou então é porque estou morto.
Nós ainda podemos ter um belo fim,
Nesse doce dia.

Amor e Morte


Tempos bons e graciosos aqueles
A tua boca vermelha de crueldade
Na minha direção com beijos doces
Com o teu perfume na minha respiração
Mas palavras aveludas e doces
Não são capazes de mudar o destino
Aquele da maldita traição
Somente a vingança pode-me confortar neste momento
A minha vontade é simplesmente uma
Esgarçar o teu pescoço com a foice
Promover o teu destino grotesco
Sujeito traidor, chegou a tua hora
Na noite com melodias fúnebres
Deliciosa será a tua morte

Flávia



Rapariga de pele branca e cabelos negros
Os teus olhos brilham com um simples olhar
Olhar que no qual tudo que vê, pode sonhar
Conquistas as pessoas sem se esforçares
Cativou-me pela simples amizade
Na tua pessoa vi a pura sinceridade
Que o inferno caia sobre mim se alguém desejar
Mas quando morrer dentro de mim irei-te guardar
Pelas sombras e escuridão tudo será perfeito
Porque o amor verdadeiro por ti, carrego no meu peito
E se alguém um dia nos tentar separar
Que caia uma praga sobre mim, não pensarei duas vezes antes de vingar
Derramarei o meu sangue por ti
Gosto muito de ti podes ter a certeza
Por ti desço na pior das profundezas
Que eu morra antes de ti
Pois jamais quero presenciar o teu fim
Pois um jovem e negro coração
Não viveria sem ti na escuridão.

Dama da Morte


A tua pele branca como a lua,
Pálida e fria
O teu corpo quase sem vida
Numa madrugada vazia
Uma rosa murcha na tua mão
E eu ali, admirando-a
E eu ali, amando-a
As tuas vestes negras
Baloiçando ao sabor do vento
O teu corpo fraco
Suavizando o meu tormento
Não nego a força do meu desejo
Rosa negra no branco luar
Só preciso do teu beijo
Como eu queria
Morrer em teus braços
Libertar-me dos laços
Desta vida perdida
Abraça-me, beija-me
Leva-me para o teu mundo
O teu paraíso negro e profundo
Agora é tarde
Eu sonhei demais
Diante de mim o nada
E a certeza de nunca ter paz
O gosto amargo da dor
Ardor da desilusão
E eterna solidão
Que seja Bela na minha mente
A dama da morte doente
Enquanto eu, um ser vivente
Caminho sem esperança eternamente.