Ao abrir os olhos, ele teve a terrível sensação de estar imobilizado. Tentou observar em volta, descobrir o que lhe estava a acontecer, mas a cabeça bateu com força logo acima. Ele estava totalmente impossibilitado de se mover muito além da posição deitada em que se encontrava. E estava mergulhado na escuridão.
Com calma, procurou mover-se ao máximo que se lhe era permitido. Ele virou as mãos, apalpando aquela barreira. Por mais que os seus olhos se acostumassem à escuridão, não conseguia ver nada. Os dedos tocaram em algo pequeno, duro, que subitamente se afastou, e ele sentiu profunda repugnância ao concluir que era uma barata. Que lugar seria aquele?
Ele descobriu, em seguida, quando os seus dedos tocaram num entalhe de cruz. Estava dentro de um caixão. Uma imediata sensação de claustrofobia apoderou-se do seu corpo. Ele começou a gritar por socorro, pontaeando e esmurraçando as paredes. Quanto mais o barulho ecoava e se concentrava naquele exíguo espaço, mais desesperado ele ficava. A sua reação histérica durou pouco mais de meio minuto.
Inconscientemente, ele decidiu manter o controlo. Pensou, então, que, quanto mais se atrapalha-se, mais estaria condenado a morrer naquela clausura. O seu ar, em breve, tornava-se cheio de gás carbônico, e morreria asfixiado. A histeria só serviria para o fazer respirar mais, acelerando a sua própria morte.
Quando sentiu a pulsação e a respiração a acalmar, tentou pensar de forma racional. Dormira tranquila e normalmente na noite anterior. Lembrava-se que tivera bons sonhos, mas não se conseguia lembrar quais foram. Não acordara até o momento de abrir os olhos ali dentro. Alguma coisa lhe acontecera nesse intervalo. E, lentamente, convencia-se do pior.
Fora enterrado vivo.
Por mais assustadora que a idéia parecesse, não conseguia imaginar outra explicação. Alguém, por qualquer motivo, convencera a todos que ele havia morrido, e o enterraram. Por um momento, tossiu. A tosse foi seca, agoniada, e ficou com medo que o ar se acabasse. Deu-se conta da fragilidade de sua situação, e o desespero instaurou-se outra vez; ele recomeçou a esmurraçar e gritar. Vieram-me lágrimas aos olhos, e ele desatou a chorar piedoso, passando a sussurrar desejos insanos de liberdade.
Tentou imaginar quem seria maligono o bastante para colocá-lo em tal pesadelo. Logo ele, um ser possuidor de uma conduta impecável, digno de honrarias por honestidade e altruísmo. Um trabalhador exemplar, um amante incomparável. Como, e por que motivos, acabara ali, sepultado, enquanto ainda respirava?
Recompondo-se, outra vez dono de si, girou a cabeça para limpar, com alguma dificuldade, as lágrimas na camisa. Com o rosto de lado, ouviu alguma coisa e tentou ver, sem conseguir. O som era como algo rastejante, seguido de leves batidas. Quando se deu conta, sentiu um arrepio percorrer os pêlos. A barata. Instintivamente, mandou-se para o lado e a pancada que sofreu no corpo fe-lo gemer de dor.
Começou a tossir e, quando parou, sentiu várias patas subindo pe-lo seu braço. Com um nojo sobre-humano, deu-se conta que havia ali em torno de três ou quatro baratas, aproximando-se, sentindo no ar o odor quente da sua morte iminente. Comessou a pensar na própria família. Nos pais, no irmão mais novo, na mulher que tanto amava. Sempre tentara tratá-los da melhor forma. Nunca lhes dera motivos para terminar assim.
Ou dera?
Sentiu duas baratas subindo-lhe o pescoço, aproximando-se de seu rosto. As demais — agora tinha certeza que eram, no total, cinco daquelas pequenas coisas — caminhavam sobre a roupa que cobria s peito, movendo-se em direção aos braços e pernas. Os insetos agiam como se examinassem o seu corpo, atraídos pelo cheiro de pavor que saia de cada poro seu. Deliciavam-se com esse cheiro, e caminhavam com grande satisfação sobre a sua pele, como que para tornar aquela fragrância sepulcral ainda mais envolvente.
Sentiu uma vertigem ainda maior quando uma das baratas se aproximou de sua fossa nasal. Expirou com força para assustá-la, mas a ignóbil criatura não recuou; desistiu da narina e subiu até o topo do nariz, descobrindo adiante os olhos. A sensação do que estava por vir fez com que ele se remexesse desesperadamente, um pânico invadindo a sua garganta como uma golfada explosiva. A barata rolou até uma das sobrancelhas.
O nojo e o terror aumentaram quando ele sentiu uma dor fina num dos dedos, e imaginou que seria outra barata, roendo-lhe a pele, a carne, a cartilagem, a vida. Gritou e chorou, implorando a ajuda de cada santo que se conseguia lembrar, a espera que um milagre acontecesse.
Os gritos só serviram para que, com a boca aberta, uma barata se aproximasse e resolvesse explorar. A outra, a essa altura, já caminhava sobre a sua córnea, deslizando no seu olho, entorpecida pelo brilho e pelo gosto irrisório que lhe proporcionava. Enquanto a dor aguda aumentava nos seus dedos, a barata atravessou-lhe os lábios com velocidade e começou a examinar o sabor da sua saliva.
Para evitar que a barata lhe descesse pela garganta, passeasse e até resolvesse reproduzir-se no seu interior, ele esperou que caminhasse até à sua arcada inferior, então mordeu com força, atravessando com os dentes, provando com a língua o paladar séptico das suas entranhas.
Quis estar morto. Não conseguia entender por que alguém fora tão cruel a ponto de enclausurá-lo daquela forma. Pensou nos pais, na distância do convívio, apesar de morarem na mesma casa, no tempo que estavam a perder sem se divertirem quando tudo poderia de repente acabar. Pensou no irmão, nas brigas rotineiras, na forma como o destratava e no quanto o amava e sentia a sua falta. Pensou na namorada e em cada segundo de amor não correspondido que ela lhe dedicava. Pensou nos amigos que ficaram pelo caminho, porque ele fora egoísta demais para mantê-los na sua vida. Pensou nos filhos que não mais teria e no quanto privaria deles também o próprio amor.
Enquanto uma barata punha ovos abaixo da esclerótica do seu olho, enquanto outras pareciam supostamente, a deliciar-se com a textura cálida das suas hemácias, enquanto sentia a aproximação lenta e persistente de fungos e micróbios decompositores, gritou. Não foi um grito de dor ou medo. Foi um grito de dó. Dó de si mesmo.
O grito pareceu sugar-lhe todo o resto do fôlego que possuía. Podia sentir apenas pela intensidade do toque do ar na sua pele que ali não mais havia oxigênio suficiente.. Teve vontade de rir da efemeridade humana; sempre ambiciosos e, em momentos como aquele, desejam a coisa mais simples, que têm sempre. Vida.
A tosse ficou mais forte, e os seus alvéolos constringiram-se. Ele, já sem fôlego, sentiu uma dor no peito, que estava longe de ser a morte; era arrependimento, por toda uma vida mal vivida. E só então, quando sentia o corpo desfalecer, quando sentia cada membro pesar, compreendeu o que acontecera consigo. Enquanto as suas pálpebras se fechavam, enquanto as dores e até o movimento das baratas não mais incomodavam, entendeu que não foram os pais, o irmão, a namorada ou amigos que o colocaram ali.
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